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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Fixem esta data: 15 de Março de 2019. Vai ser apenas um começo, mas o começo da maior reviravolta política, económica e social de sempre em termos globais.

Milhões de pessoas, maioritariamente estudantes do ensino secundário e superior, saem às ruas a exigir acção dos seus governos para travar as alterações climáticas, a maior e mais premente ameaça global que a humanidade alguma vez enfrentou e que, se não forem tomadas medidas drásticas muito rapidamente, transformará irreversivelmente a vida como a conhecemos. Reclamam o direito a um futuro, têm argumentos incontestáveis e a força da mobilização de massas como nunca antes vista e, tudo indica, em crescendo. Não vão desistir até conseguirem o que reivindicam: medidas concretas e urgentes para reduzir as emissões de GEEs (gases de efeito de estufa) a níveis que permitam limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC em relação a níveis pré-industriais.

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O movimento #FridaysForFuture ou #ClimateStrike, iniciado por Greta Thunberg, uma adolescente sueca determinada a lutar pela justiça climática contra o sistema, cresceu exponencialmente desde os protestos solitários em frente ao parlamento sueco, e promete mudar o mundo. Têm-se sucedido greves e protestos de grande dimensão na Bélgica, Austrália, Reino Unido e França, por exemplo. Para 15 de Março, a Greve Climática Estudantil está agendada para centenas de cidades em 92 países. É A MAIOR GREVE DE SEMPRE.

O movimento é estudantil, mas colhe apoios sem reservas da comunidade científica internacional e dos activistas pela justiça climática. O consenso é inequívoco: para a maior crise ecológica de sempre, as respostas do status quo (de falsas soluções de “capitalismo verde” a um tecnopositivismo que remete para um futuro incógnito pelo qual não temos tempo para esperar de braços cruzados) não são minimamente eficazes. O problema reside no sistema, pelo que nada menos do que mudar o sistema o poderá resolver.

Em Portugal, estão confirmados 27 locais com protestos organizados o âmbito da Greve Climática Estudantil. Cientistas e activistas têm feito palestras nas escolas e universidades para esclarecer os factos das Alterações Climáticas e sensibilizar alunos. Juntam-se professores, pais e muitos movimentos sociais comprometidos com os direitos humanos, a justiça social, a luta feminista e anti-racista, porque a justiça climática é uma luta interseccional.

As ambições destes jovens não são modestas. Pretendem, e vão conseguir, mudar o destino da humanidade. Eu acredito, até porque é a única hipótese que temos. A Revolução começa agora!

Crónica publicada originalmente no Repórter Sombra, a 15/03.

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Olá. O meu nome não é Sofia e eu sou poliamorosa.

Não sou uma extraterrestre, não sou uma pervertida ou tarada sexual. Sou só alguém que, como provavelmente a maior parte das outras pessoas, ama mais do que uma pessoa mas, ao contrário da maior parte das outras pessoas, vive várias relações afectivas e sexuais com o conhecimento e consentimento de todos os envolvidos. Está dito. De seguida, vou explicar um pouco mais. Vamos por partes.

 

Poliquê?

O poliamor é uma das formas relacionais que se enquadram na não monogamia ética e distingue-se por existirem sentimentos românticos por mais do que uma pessoa em simultâneo. Uma imensa panóplia de outros formatos existem, desde as relações abertas à anarquia relacional. A diversidade é tanta que se torna complexo atribuir definições estanques e rótulos. O ponto fulcral de todas as não monogamias éticas é o desejo de manter relações afectivas ou sexuais com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, em que existe consentimento de todas as partes. Podem existir parceiros preferenciais numa hierarquia clara, ou não, parceiros ocasionais, tríades, diferentes graus de envolvimento emocional, com ou sem co-habitação, com ou sem co-parentalidade.

 

O meu percurso

Durante muito tempo achei que era monógama. Não conseguia conceber que tivesse espaço emocional para mais do que um Amor profundo, denso, absorvente, ou acreditava que pelo menos um seria sempre mais importante, mais bonito, mais pesado e, em comparação, a existirem sentimentos por outra pessoa, não podia ser amor, pelo que teria de fazer uma escolha e manter-me fiel ao “amor verdadeiro”. Quer dizer, não concebia isto especificamente para mim, já sabia o que era o poliamor, já apoiava desde sempre todos os formatos de relações abertas e de não monogamia ética, mas apesar do interesse político e social que me despertava, não me via a mim em tal situação. Até que aconteceu. De repente e sem pré-aviso, entrou na minha vida alguém que me abalou uma série de certezas, que me suscitou sentimentos muito fortes e impossíveis de ignorar, e isto sem colocar em causa ou alterar os sentimentos que existiam pela pessoa com quem já mantinha uma sólida relação íntima, a quem nunca escondi rigorosamente nada em nenhum ponto e que, sendo a pessoa absolutamente extraordinária que é, apoiou que explorasse livremente os meus sentimentos e desejos, num processo cheio de dificuldades e complicações particulares que superámos e com o qual aprendemos e crescemos muitíssimo.

 

Ao longo das contínuas incursões analíticas de auto-conhecimento, fui percebendo que já me tinham surgido vários outros interesses amorosos que não os meus parceiros durante o curso de todas as relações em que tinha estado, e que sempre tinha reprimido esses interesses, cortando qualquer hipótese de aprofundar o conhecimento da outra pessoa, porque isso se afigurava como um “risco”, um potencial atentado contra a estabilidade da relação. Tinha condicionado a minha liberdade sentimental a escolhas sucessivas, porque estava profundamente convencida que apenas uma pessoa poderia merecer o meu amor, todo o meu amor, como se de um recurso finito e escasso se tratasse.

 

Percebi finalmente o quão ridículo era deixar passar a oportunidade de deixar entrar na vida pessoas fantásticas, com o potencial de se tornarem muito importantes, por receio de gostar delas e, ao mesmo tempo, depositar toda a pressão de encontrar em todos os momentos o que se necessita de dar e extrair de uma relação emocional em apenas um outro ser humano, com personalidade, gostos e ritmos próprios, com falhas, erros e momentos complicados, e toda a miríade de particularidades individuais que têm direito a existir muito para além, e por vezes em contradição, da esfera da relação entre duas pessoas. Percebi que não só os modelos relacionais não-monógamos fazem muito mais sentido, como as próprias relações, cada uma delas, se torna muito mais saudável, com expectativas mais realistas, com comunicação mais fluida, com mais partilha e, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, muito mais segurança. Percebi enfim que, tendo percebido tudo isto, não havia a menor hipótese de voltar a conceber plausível para mim a monogamia, que agora se afigura como restritiva e desadequada.

 

Como se gere?

Na não monogamia ética todas as relações (emocionais e/ou sexuais) são consentidas entre todos e existe um grau variável de liberdade para explorar afectos e desejos com outras pessoas. Isto é ponto assente. Depois, cada relação tem as suas dinâmicas, regras e hábitos próprios, que os intervenientes vão construindo e desconstruindo, ajustando, desejavelmente na óptica da confiança e transparência e com muita comunicação. Os formatos são múltiplos, não existem conceitos de relações “certos” ou “errados”. Há relações abertas (em que os intervenientes têm liberdade de explorar outros interesses afectivos ou apenas sexuais), há relações poliamorosas (em que as ligações implicam um envolvimento sentimental), podem existir relações com hierarquia distinta (com parceiros primários distintos dos secundários), ou no caso da anarquia relacional, sem regras estanques, e mais uma panóplia de variações. Há quem faça “contratos” ou estabeleça regras vinculativas e há quem vá acordando e decidindo o que é melhor e mais confortável para todos à medida que as situações e desafios surgem. As pessoas e as relações não são estanques, evoluem e adaptam-se. E acontecem problemas, crises, zangas e rompimentos, bem como fases excelentes e momentos fabulosos, como em todas as relações.

 

E o ciúme?

Na minha perspectiva, o ciúme é apenas um reflexo da insegurança ou do desajuste de expectativas. Não posso dizer que nas relações não monógamas não há ciúme. É claro que pode haver, porque a insegurança pessoal não se ultrapassa com passes de mágica, mas é vivido de outra forma. A comunicação aberta e constante é um imperativo, pelo que o cenário mais provável é que as pessoas inseguras deixem claras as suas inseguranças ou expectativas frustradas, e os seus parceiros façam o melhor que sabem e podem para as aplacar. Além disso, o mindset de uma pessoa não monógama é, à partida, capaz de resolver grande parte do problema na sua génese. A liberdade é a maior prova de amor. Se temos e damos aos nossos parceiros liberdade para estar com quem escolhermos, sem amarras ou condições, sabemos que quem está connosco só está porque quer e enquanto quer, e não para manter uma promessa ou contrato de fidelidade exclusiva.

 

O próprio oposto do ciúme é sentido frequentemente pelos poliamorosos. Chama-se compersão à alegria e felicidade que se sente quando um dos nossos parceiros encontra uma nova pessoa que o faça feliz - e não, asseguro que não é um mito.

 

Porque é que a monogamia é a norma?

A monogamia é o tipo de relação exclusiva (normalmente, em termos emocionais, sexuais, estruturais e sociais) entre duas pessoas. É a norma cultural vigente, dado que a presunção implantada colectivamente é a de que a relação romântica ocorre apenas entre duas pessoas. O conceito de monogamia está intrinsecamente ligado ao conceito de propriedade privada - e mais concretamente à ideia de, numa relação heterossexual, a mulher ser propriedade privada do homem. Na família monogâmica patriarcal, surgida com o advento da agricultura e do sedentarismo das populações, o homem é o centro do poder e tem um direito inquestionado de “ser infiel” (nos machos a líbido é apenas uma manifestação de virilidade, como é sabido), mas uma vez que precisa de garantir que os seus herdeiros são filhos legítimos, a mulher não aufere do mesmo direito. A (o)pressão acrescida que se atribui às mulheres verifica-se em todo um código de conduta subentendido que as obriga à monogamia e à fidelidade. Uma transgressão da mulher ao elo do matrimónio monógamo é, ainda hoje, vista como "um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem", citando o célebre – pelos piores motivos – acórdão do juiz Neto de Moura.

 

Como resultado desta opressão histórica propagada de forma quase universal, e reforçada pelo clero, as normas sociais vigentes impõem sobre o amor romântico uma série de regras e mitos sem fundamentos plausíveis.

 

A mononormatividade é incutida e reforçada socialmente de forma transversal. A ideia de que só se ama uma pessoa, de cada vez ou na vida toda, que quando se encontra “aquele alguém especial” se sabe, porque esse amor é tão único e irrepetível que só há um cartucho para gastar durante toda a vida, a noção de que ter sentimentos por outra pessoa além do parceiro já existente é uma espécie de falha ou poluição que invalida a veracidade do amor, está presente em todas as facetas da vida no mundo actual. Está presente nas narrativas romantizadas do amor idílico em filmes, romances e demais ficções em que os triângulos amorosos e outras alterntivas à ideia de amor perfeito único são apresentadas como obstáculo a superar, dilema a resolver. Está presente em toda a lógica dos mercados orientados para a vida a dois, em casal (e, já agora, em casal heterossexual e binário). Está presente na religião, na lei, na justiça, e está presente nos casamentos e ainda em grande parte das famílias divididas.

 

Quantas relações monógamas actuais são destruídas porque alguém sente interesse, atracção, amor por outro alguém e o reprime, causando desconfortos e desequilíbrios em si e na dinâmica relacional, ou persegue um novo interesse de forma escondida, sem assumir a verdade perante a relação já existente, como se a atracção ou o amor fossem algo de feio, sujo ou ilícito? Onde está escrito que só se pode ter uma relação, um amor, um companheiro?

 

Curiosamente, muito pouca gente parece parar para questionar esta ideia tosca e tão pouco sensata do amor romântico único. Em mais nenhuma relação emocional a sociedade interfere de forma a limitar a um o objecto de afecto. Não tem cabimento para ninguém obrigar as pessoas a escolher apenas um filho para amar, apenas um irmão, ou o pai ou a mãe, que os dois é demais. Ninguém fica boquiaberto perante o facto de alguém ter mais do que um(a) amigo(a) com quem gosta de passar tempo. O moralismo pequeno-burguês marca a natureza distinta das relações pela presença de intimidade carnal. Novamente, é a ideia fundada nas raízes da cultura judaico-cristã e reforçada pelo feudalismo de que o sexo é uma coisa pecaminosa (sobretudo para as fêmeas, já sabemos) a destrinçar o que é aceitável do que é um atentado aos bons costumes.

A monogamia enquanto norma social é, assim, uma opressão difícil de contornar.

 

Falar da não monogamia a pessoas monógamas

Não é fácil assumir e viver publicamente sem vínculos às expectativas do que é a norma social. O que existe em contra-regra é olhado como estranho, como anormal, é caricaturado e conotado com uma série de ideias pré-concebidas sem qualquer fundamento. No caso das não monogamias, a desinformação abunda e a desconfiança e o preconceito também. Falar da não monogamia a pessoas monógamas é um desafio e muitas vezes torna-se frustrante. Dizer e viver a verdade parece ser mais estranho do que encobrir com mentiras que tornam tudo muito mais normalizado. Na sociedade actual, em que o adultério é perfeitamente normalizado e até, em certa medida, expectável porque não só não questiona a norma da monogamia, como a reforça e reproduz, são as vivências amorosas e sexuais múltiplas com consentimento de todas as partes que são percepcionadas como transgressões sociais e morais. É curioso, não é, que a transparência e a verdade sejam consideradas imorais, mas que as opressões, mentiras e traições sejam corriqueiras e banalizadas?

 

Fazer uma saída do armário (“coming out”) pode ou não fazer sentido, consoante o contexto social e familiar, a personalidade e estrutura mental e emocional de cada pessoa. Não estando a fazer nada de errado ou que seja motivo de vergonha, pode ser esquisito fazer esforços para esconder o modo de vida; contudo, assumir perante o mundo formatado para a visão oposta e informar inusitadamente os outros pode também significar abrir a porta a preconceitos, a incompreensão, a tensões e a lutas que, muito francamente, podem aportar muito pouco além de desgaste emocional e turbulências desnecessárias.

 

Não pretendo fazer a apologia da não monogamia ética versus a ridicularização da monogamia. Não há certos ou errados no que diz respeito às relações pessoais íntimas. Cada qual sabe de si e o que funciona bem para uns não tem de funcionar para outros. Pretendo, sim, desmistificar as construções fictícias em torno da monogamia como modelo desejável, recomendável e caminho único para a felicidade amorosa. Pretendo, sim, fazer a apologia da liberdade, da aceitação, da tolerância. Acima de tudo, quero evidenciar aquilo que toda a gente, no fundo, já sabe. O amor não é um bem precioso que se deva guardar num cofre e dar a um receptor único. O amor é infinito, é plural, contagioso. O amor não se divide, multiplica-se.

Como é que se perde um amigo? Falo de uma perda de amigos vivos, falo do fim da amizade, de uma árvore seca, sem seiva ou lume; falo de ficar um vazio, seco e frio, onde antes estava uma super-cola imaterial a unir duas pessoas. Perder um amigo é diferente de um afastamento, de um desgaste, de uma fase mais complicada, de um amuo ou zanga; nestes casos tudo pode voltar naturalmente ao que já foi, ou pode só manter-se esta distância feita de indulgência mútua, sem nunca se ter passado pela ruptura, pelo sentimento de perda. Há amizades que se diluem no tempo, nas distâncias, nas circunstâncias da vida, nos desencontros, nas diferenças, nos desânimos, nas derivas lentas. Mas falo de ter algo raro, bonito e precioso num momento, e de repente não mais o encontrar. Falo de faltar um chão que era sustento seguro, de se ser dispensado do lugar de presença constante e incontornável. Falo de uma dor repentina como um trovão, insustentável, dilacerante, paralisante.

 

Perder, diz-nos o dicionário, é “deixar de ter alguma coisa útil, proveitosa ou necessária, que se possuía, por culpa ou descuido do possuidor, ou por contingência ou desgraça.” E amigo é “quem sente amizade por ou está ligado por uma afeição recíproca”. Perder um Amigo é, portanto, uma afecção disruptiva da reciprocidade de um afecto, por culpa ou descuido, contingência ou desgraça.

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Confesso que sou nova nisto de perder amigos e talvez por isso me custe tanto a compreender. Já deixei ir alguns amigos, quedei-me passiva perante as imposições de algumas distâncias ou permiti que desgastes e frustrações alargassem os elos, por negligência ou circunstâncias várias. Também já coloquei em pausa Amizades importantes, por motivos de força maior, mas os elos não quebraram e estas uniões retomaram o seu lugar ou retomarão um dia. O afecto e todo o muito que nos unia continua a existir, intacto. Na hora de recomeçar, pega-se no ponto onde se ficou, basta sacudir e desempoeirar as marcas do tempo, a cumplicidade retorna e a partilha também.

 

 

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[Crónica publicada no Repórter Sombra]

A indústria farmacêutica é uma das mais lucrativas do mundo, e um dos tentáculos mais cruéis do capitalismo. Mercantilizar um direito fundamental como é o acesso à saúde é uma opressão brutal sobre todos os que não têm condições económicas para se proteger, tratar ou curar. Este é um ponto basilar de toda e qualquer discussão sobre saúde e que não pode ficar arredado do pensamento. O capitalismo mata gente, ponto. Mata muita gente. Mantém doente e incapacitada e em sofrimento agonizante muita gente. Limita a liberdade, a mobilidade, a capacidade de trabalho (logo, a subsistência) e o bem-estar de ainda muito mais gente.

Posto isto, não deixa de ser espantoso que se criem resistências patetas, baseadas em ignorância, medo, mitos e desinformação, talvez laxismo, a soluções preventivas que são acessíveis. A corrente New Wave de anti-vaxxers que coloca em causa não só a própria vida como a saúde pública é um perigo global que já trouxe de volta doenças que tinham sido dadas como erradicadas (como o sarampo) e vai permitindo à selecção natural actuar de formas que já deviam estar em desuso.

Tomemos o exemplo da vacina da gripe. Em Portugal, esta vacina é disponibilizada gratuitamente para uma parte das pessoas consideradas grupos de risco e é uma protecção eficaz contra um vírus muito mutável, que causa uma doença extremamente comum, potencialmente debilitante e mesmo mortífera se existirem complicações. Mas proliferam vários mitos sobre a mesma e a maior parte das pessoas dispensa a vacina, mesmo podendo adquiri-la sem esforço ou gratuitamente. Já ouvi desculpas como “as vacinas são para os velhinhos” ou “se apanhar a vacina é certo que fico doente a seguir”. Não, as vacinas não são só para os velhinhos. São indispensáveis a todos quantos fazem parte de grupos de risco (pela fraca imunidade ou pela exposição acrescida, por exemplo), de todas as idades, mas são também úteis a todos os outros, já que não é raro os surtos de gripe tomarem características epidémicas. E não, a vacina da gripe não contém vírus activos, pelo que não vai provocar gripe a quem a toma. Não vai é a tempo de evitá-la caso o contágio se tenha dado antes (o período de incubação varia entre um e cinco dias).

É também comum, em Portugal, empresas de média ou grande dimensão facultarem aos seus trabalhadores a vacina contra a gripe (não porque sejam beneméritos, mas porque pretendem evitar o absentismo e quebra de produtividade dos trabalhadores doentes). Mas graças aos mitos e desinformação, grande parte dos trabalhadores recusa esta protecção. Destes, a maioria está, pouco tempo depois, a tossir e a espirrar nas salas e corredores (que ficam passíveis de confusão com um sanatório), para cima dos equipamentos comuns, a usar as mesmas maçanetas e torneiras que toda a gente. Ou seja, a potenciar o contágio. E isto também porque ninguém quer perder o salário de uns dias “só” por causa de uma gripe. Ao contrário do que alguns patrões e chefias pensam, os trabalhadores não vão trabalhar doentes por “amor à camisola” e extrema dedicação, mas porque precisam do salário.

A falta de civismo também é um dos factores de propagação da doença. Seja numa sala de espera de um hospital ou centro de saúde ou em qualquer transporte público, é quase um milagre não apanhar uma doença contagiosa. Pessoas de todas as idades a espirrarem alarvemente e a tossirem sem taparem a boca, além de uma tremenda falta de maneiras (não no sentido de etiqueta, mas no sentido de respeito pelo espaço individual) é um cenário comum que demonstra um desprezo generalizado pelas mais básicas regras de higiene, que se junta ainda à falta de hábito de lavar as mãos e à pouca vontade quando só há água fria nas torneiras e está um frio de rachar. As normas sociais que impelem aos apertos de mãos e beijinhos são o golpe final para concluir o cenário de surtos de gripe uma ou duas vezes por ano.

O investimento da Direcção Geral da Saúde em prevenção da gripe existe, mas sem particular notoriedade, pelo menos do ponto de vista do cidadão comum. No Sistema Nacional de Saúde, a falta generalizada de equipamentos suficientes e eficientes para cobrir as necessidades das populações (hospitais e centros de saúde com serviços de atendimento permanente, para começar) levam a salas de urgências a abarrotar e a tempos de espera intoleráveis, em que a exposição a agentes infecciosos aumenta consideravelmente. Um apontamento muito positivo é aqui devido à Linha Saúde 24 (808 24 24 24), que disponibiliza de forma gratuita aconselhamento cuidado e encaminhamento dos utentes.

Quem ganha com tudo isto? A indústria farmacêutica de que estamos reféns, que vende a solução preventiva e vende uma miríade de remédios para tratar cada um dos sintomas (um para a febre, um para a tosse, um para as dores de garganta…). Depois do enorme embuste que foram as vacinas contra a Gripe A (vírus H1N1) há nove anos, para responder a um alarmismo sobredimensionado, mesmo os mais ingénuos já perceberam que não estamos a falar só de uma relação económica simples entre procura e oferta. Estamos a falar de um negócio multimilionário assente num complexo sistema de interesses que joga com dinheiros públicos, privados e com a saúde das populações. Faz-nos pensar, por exemplo, se terá sido só coincidência que num inverno como este, em que o pico esperado do surto de gripe tardou mais do que o habitual, as vacinas contra a gripe tenham estado genericamente esgotadas até ao final de Dezembro...

A saúde das pessoas, que deveria ser prioritária ao longo de todo o processo (da informação à prevenção, do diagnóstico ao tratamento) é uma espécie de efeito secundário neste enredo em que cada um de nós é apenas mais um consumidor. Deixar a saúde nas mãos gananciosas do grande capital significa que são as leis do mercado que controlam tudo. As soluções que curam não são rentáveis para as farmacêuticas, pois estariam a anular rendimentos futuros. Assim, o interesse da indústria não é produzir curas; é manter os doentes dependentes de medicação a longo prazo com drogas “cronificadoras” das doenças. Por outro lado, as doenças que afectam sobretudo populações com pouco poder de compra vão sendo negligenciadas e o investimento em investigação e desenvolvimento de medicamentos foca-se nas maleitas do mundo ocidental e desenvolvido. Não é por mero e infeliz acaso nem por inépcia da ciência que doenças devastadoras como a SIDA, malária ou tuberculose não tenham ainda curas definitivas e vacinas completamente eficazes conhecidas, ou que as populações dos países em desenvolvimento só pareçam ser apelativas para a indústria do ponto de vista dos ensaios clínicos.

Entre a ignorância que rejeita a vacinação e empola surtos de doenças erradicadas ou ‘apenas’ de gripe, e a ignorância da alienação e passividade perante o controlo da civilização por parte do poder económico, há pontos comuns e é nestes que devemos, colectiva e individualmente, reflectir. A ignorância, como o vírus da gripe, é contagiosa, propaga-se rápida e facilmente e não se cura com antibióticos. Além disso, inicialmente aparenta ser uma perturbação sem grandes consequências, passageira, mas abre a porta a complicações muito maiores e gravosas. Mas ao contrário do vírus, infelizmente, não há vacina que nos proteja contra a “infecção”. Cabe a cada um de nós fazer a profilaxia individual (informação, raciocínio crítico e higiene intelectual) e estimular os outros a fazerem o mesmo.

Da mesma forma que as doenças são incuráveis só até se descobrir a cura, também os poderes só são invencíveis até serem derrotados.

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[A minha mais recente crónica publicada no Repórter Sombra.]

Dar desinteressadamente é das atitudes mais louváveis do ser humano. A generosidade para com o outro não é necessariamente traduzida em valores materiais, mas é dar afecto, o seu tempo, o seu carinho, a sua atenção, dar uma mão para ajudar a levantar ou para amparar uma queda, ou também dar apoios palpáveis para concretizar um sonho ou suprimir uma necessidade. Pode traduzir-se de milhares de formas diferentes, das mais complexas às mais singelas. Pode ser apenas uma companhia, uma boleia, uma frase, um incentivo ou um abraço, ou qualquer outra demonstração de zelo pelo bem-estar do outro.

Dar abertamente o que se tem e pode, sem agenda, sem ulterior interesse ou sem sentimento de dívida ou expectativa é uma manifestação de altruísmo genuíno. Talvez seja empatia, talvez seja solidariedade, ou muito mais do que isso, amizade.

Não confundir a generosidade com a caridadezinha, com a esmola, que de altruísta tem muito pouco, movendo-se antes pelo culto do ego, da imagem externa, de uma pretensa superioridade moral ou religiosa. Quem dá de boa vontade não informa o mundo que o faz, dispensa bem a publicidade, a exibição e o elogio.

Quem recebe, se não sofrer de complexo narcisista ou não tiver capacidades emocionais ou intelectuais afectadas, sentir-se-á grato por ser alvo da ternura ou bondade de outro. Mas quando o sentimento de gratidão se transforma num balancete entre o deve e o haver, numa medida calculista que atribui valores quantitativos e materiais a cada acto, o sentimento é desvirtuado. Chega mesmo a ser um pouco ofensivo que aqueles a quem se dá façam questão de retribuir “em igual medida” ou excessivamente, para saldar uma dívida que não existia. Chamei em tempos a esta forma calculada de agradecer "gratidão de contabilista".

Quem dá de coração aberto, porque quer e gosta, não mantém um livro de contas em que regista o que dá, quando dá ou quanto vale o que deu. Quem dá com amor, dá porque sim, para despertar uma alegria do outro lado, nunca para formalizar uma dívida, jamais para ficar numa situação de superioridade ou de poder em relação ao outro.

Repito amiúde “a amizade não se agradece, retribui-se”. No entanto, quando a retribuição surge como uma obrigação, forçada, contida em moldes formais, pensada ao detalhe para não defraudar eventuais expectativas, porventura trabalhada ao exagero para manifestar uma gratidão que até pode ser real, soa a falso. Normalmente até são gestos que traduzem uma gratidão bem real, mas tão demasiado pensada, tão equilibrada ou abundante no seu retorno, que fica constrangida e diminuída até caber nos moldes do socialmente aceite e conspícuo. Tanto, que é desconfortável e intimidante.

Para saber dar, é necessário saber receber. Quem tem dificuldade em aceitar elogios, afecto ou um mimo, seja porque nunca o teve de forma sincera, porque tem a auto-estima desfeita, porque tem uma imagem desfigurada de si próprio ou por outro motivo qualquer, não tem padrões nem referências aos quais se comparar, fica perdido, muitas vezes com medo, aterrorizado de que este afecto lhe seja cobrado de formas a que não pode corresponder. Não sabe como receber essa dádiva estranha, acha que não merece, crê que fica em dívida para com quem dá e tenta colmatar o défice logo que possa, atabalhoada e exageradamente.

Quem não está habituado a sentir-se amado fica de tal forma espantado com demonstrações abnegadas de afecto que pode confundir o amor com uma benesse ou uma espécie de favor. É uma visão deturpada dos afectos, mas é comum quando a visão do próprio é, também ela, deturpada. Assim, tem maior probabilidade de ter uma forma calculista de reciprocar, o que muitas vezes cai no exagero, na subserviência, numa hipérbole que não toma toda a extensão que aparenta. Contorce-se em agrados, capaz de sacrifícios que ninguém quer e que se tornam até incómodos.

O amor (seja em que forma for) não é uma concessão, não é um prémio que se atribui mediante atributos ou provas de esforço, até aí todos sabemos – por muito difícil que seja a sua definição, a natureza ambígua dos afectos será consensual.

Quem gosta do outro só o quer ver bem. Quem gosta do outro quer e precisa de retribuição. Somos animais sociais e carecemos de validação, dependemos do suporte emocional de uma rede de proximidade. A expectativa depositada nessa retribuição não é cobrança, é perfeitamente legítima e contradiz o desapego, reforça os laços que permitem o crescimento e aprofundamento das relações humanas. Quem gosta quer ser gostado de volta.

Não se agradece a amizade ou o afecto. Não se compra, nem com géneros nem com gestos magnânimes. Merece-se. Conquista-se. Respeita-se. Retribui-se a seu tempo, quando a ocasião se proporcionar, se houver vontade e reciprocidade. Ninguém quer beijos falsos. Ninguém gosta de abraços forçados. Ninguém precisa de poemas e odes que não sejam verdadeiros. Basta aceitar e acender um sorriso.

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Há mais de duas décadas a escrever insistentemente sobre o amor, colecciono mais questões do que certezas, mas em ocasiões fortuitas surge-me uma ou outra epifania. A mais recente foi esta: o amor nasce da liberdade. Nasce da aceitação e admiração de outra pessoa, na ousadia máxima de ser exactamente quem se é. O amor não tolhe vontades ou desejos, aceita-os e dá-lhes alento. O amor não obedece a fórmulas ou a listas de requisitos, acontece por alguma espécie de cocktail misterioso de hormonas, neurotransmissores, instintos e uma insubstituível pitada de alguma coisa indefinida a que podemos chamar, a bem do romantismo, magia. O amor faz-se, cresce e cimenta-se na verdade, na nudez de ver o outro sem máscaras, sem subterfúgios ou dissimulações, no seu todo. Isto inclui os maus-humores, as doenças, fragilidades, crises existenciais, surtos de raivas e erros, palavras mal ditas, insensibilidades e arranhões no ego. Abarca a discórdia, a diferença, a oposição, o “lado lunar” de outra pessoa, ser-se por vezes ferido pela outra pessoa, e ainda assim não saber como impedir ou controlar avalanches de ternura na sua direcção, a vontade incontrolável de proteger com a própria pele a pele de outro para que nada lhe doa.

Amar pode nunca ser muito fácil, mas parece ser mais fácil (ou comum, vá) amar o semelhante, aquele com quem se partilham gostos, opiniões e formas de estar. É mais fácil se concordar for algo natural, se o destino desejado for o mesmo. É um conforto apaziguador não nos sentirmos sós no mundo, aves raras e enjeitadas, quando encontramos uma “alma gémea”, que nos compreende e comunga de prismas idênticos, com quem se comunica com fluidez, em sintonia.

Apaixonamo-nos por duas coisas: ou pelo que se vê no outro, do outro e de cada um de nós com o outro, ou pelo que o outro consegue ver em cada um de nós. Acrescento, se o que nos atrai noutra pessoa é só a forma como nos vê, o espelho aumentado que faz festas no ego, isso é apenas vaidade e não amor. Facilmente se poderia extrapolar daqui para verdades de bolso como "todo o amor é egoísta" ou "ninguém ama senão a si próprio". Esse amor do semelhante não será realmente uma espécie de amor virado para dentro, de gostar do que se vê reflectido do próprio em outra pessoa? Amar alguém igual a nós, em quem nos revemos, é aconchegante. Há o sentimento de identificação, de partilha, de comunhão, de aceitação. Há entendimento. Não há discrepâncias, não há extremos opostos, não há antagonismos.

Pelo lado reverso, as expectativas de nos vermos sempre espelhados na outra pessoa, quando saem goradas (porque ninguém é sempre e exactamente igual a ninguém), são usualmente fontes de atrito e de cisão.

É injusto corroer um amor pelas diferenças, pois são precisamente estas que completam o que falta a cada um, que trazem equilíbrio às dinâmicas, que apaziguam tumultas interiores. É claro que todos erramos, é claro que todos arranjamos maneira de perdoar as maiores cretinices, é claro que a perfeição é um mito e é óbvio que a gestão das relações pessoais é sempre complexa, complexos que são os sentimentos dos seres humanos. Naturalmente, há divergências intransponíveis e que tornam o amor impossível, mas essas são as que se dão a nível de valores, de carácter, de pilares fundamentais. Perdi a conta às relações que vi terminarem ou nem chegarem a começar por conta de diferenças superficiais, de um ser a noite e outro o dia, como se não fossem ambos essenciais e complementares, como se pudessem de algum modo existir sem o seu oposto.

Amar em tensão entre visões, idealizações e caminhos opostos sem a pretensão de alterar o ponto de vista do outro, sem aquilo a que Saramago chamava colonizar a vontade do outro, será a teimosia de fazer frente aos opostos que se anunciam como amores impossíveis, ou será um amor mais puro, mais indefinível, mais maduro, isento de razões com laivos onanistas e imbuído de uma aceitação e admiração que transcendem em muito o comodismo da partilha fácil?

Se não se admira a outra pessoa no próprio avesso e no contraste, se não é um espanto maravilhado com a lucidez ou poesia ou mundividência das coisas que pensa e diz ainda que nos choque, ou precisamente porque nos dá a conhecer o inverso do que é a nossa norma, se não se rebenta de orgulho desmedido no que a outra pessoa é, se não se lhe acha qualidades únicas em tanto do que faz, gosta-se do quê afinal? Da ausência de risco, de atritos e desafios? Da serenidade das conversas sempre concordantes? Da estagnação de sempre seguir o caminho mais batido? Da conformidade com os limites conhecidos, sem ímpeto para avançar, crescer e ousar mais além?

Amar a diferença é um desafio íntimo e talvez uma forma purificada e autêntica de amar. O mais verdadeiro amor. Dizer ao outro “amo-te, apesar das nossas diferenças” é amar condicionalmente, com constrangimentos e fragilidades. É uma constatação de que as diferenças são um factor negativo e que desgasta o afecto, uma espécie de aviso, como se uma agudização das divergências colocasse o amor em risco. É tolerar a oposição que o outro constitui. Dizer a quem está nos antípodas de quem somos “amo-te, exactamente como és” é amor incondicional. O amor nasce da liberdade porque o amor é, só pode ser a liberdade extrema de não necessitar de escudos protectores, regras ou limites. Tão simples. Tão complexo. Tão perfeito.

A minha mais recente crónica publicada ontem no Repórter Sombra.

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Estamos na era da informação rápida, da Internet, da acessibilidade quase imediata a todos os conteúdos possíveis e imaginários com a facilidade de sacar de um smartphone do bolso e fazer uma pesquisa ou aceder a uma aplicação. A tecnologia permite facilidades e pequenos luxos como ir ao banco às duas da manhã, falar com a família do outro lado do mundo a custo quase zero, encomendar livros, queijo e detergentes enquanto estamos numa viagem de comboio entre casa e o trabalho ou criar afinidades e amizades com pessoas do outro lado do monitor, na rua abaixo ou do outro lado do mundo. Contudo, com o poder de alcance quase ilimitado da Internet e o imediatismo e potencial de dispersão das tecnologias, chegou também uma vasta panóplia de fenómenos perturbadores, para usar um eufemismo.

 

O potencial de dispersão de conteúdos digitais passíveis de ganhar destaque de forma exponencial (ou “viralizar”) é notável, nomeadamente através das redes sociais. A facilidade de expressão e de acesso veio democratizar o espaço anteriormente reservado apenas para uma elite privilegiada e poderosa e isso é extraordinário e uma das maiores virtudes destas novas formas de comunicação. A visibilidade possibilitada a todas as opiniões, teorias, correntes e contra-culturas marginais pode ser bastante positiva, uma vez que a verdade é que escasseiam os meios de comunicação idóneos, fiáveis, sérios, abrangentes e, convenhamos, que não estejam a soldo de uma agenda política neoliberal, centralista e que serve os propósitos dos poderes instaurados. É preciso procurar, muitas vezes em nichos específicos, sem expressão popular ou comercial de monta, mas as alternativas existem. Isto é válido tanto para informação noticiosa quanto para grupos de interesses específicos que jamais chegariam ao mainstream (do ambientalismo anticapitalista a talentos literários sem meios de autopromoção).

 

Contudo, com este recém-descoberto poder de influência ao alcance do comum mortal e, sobretudo, a que o comum mortal se torna susceptível, surge também a possibilidade de disseminação de conteúdos que representam perigos sérios, por propagarem falsidades com impacto social e político, teorias sem credibilidade científica ou apenas enormes embustes, alimentados pela ignorância e pelo ódio. Sem o efeito de megafone universal da Internet, teriam os anti-vaxxers ganho expressão suficiente para colocarem riscos sérios à saúde pública, com o despertar epidémico de doenças que estavam quase totalmente erradicadas há umas décadas? E os crentes na “terra plana” e as pseudociências (homeopatias, medicinas quânticas e afins) e os negacionistas das alterações climáticas e os criacionistas que querem a religião equiparada à ciência nas salas de aulas? O crescimento de movimentos de extrema-direita, um pouco por todo o mundo, teria dimensão suficiente para eleger democraticamente quem quer acabar com a democracia?

 

Desde os inócuos apócrifos de autores sobejamente conhecidos, às abjectas "fake news" criadas intencionalmente para deturpar a opinião pública num sentido que está longe da inocência, ou desde a idolatria de famosos que tantas vezes o são sem talento outro do que o de angariar seguidores, visualizações, likes e afins à elevação de analfabetos funcionais aos cargos mais poderosos do mundo, o fenómeno está disseminado. E o perigo, esse é assustadoramente real, actual e alastra como fogo, enquanto os mais informados e razoáveis se mantêm a observar passivamente, boquiabertos de incredulidade de como podemos ter chegado ao expoente máximo da acrisia generalizada. Encolhendo os ombros porque não há argumentos para contrapôr pensamentos sem qualquer substrato, alucinações baseadas em coisa nenhuma. Virando costas porque a discussão se torna tão imbecil que “não vale a pena” perder tempo.


A popularidade exponenciada pela tecnologia dos
social media cria heróis e vilões, constrói presidentes e culpados universais, uns na antítese dos outros, em extremos opostos, e na ânsia da simplificação, da análise imediata para consumo rápido, reduz os factos (reais ou “alternativos”) a memes, a hashtags e chavões. Como se só existissem duas opções, como se só as oposições absolutas tivessem lugar neste modo de raciocínio simplório, como se tudo fosse redutível ao preto e ao branco, sem matizes de complexidade ou profundidade. A esta bipolarização simplista e inconsequente só me ocorre comparar o Tinder: análise à queima-roupa, às aparências, ao que é visível à superfície, ou melhor, ao que nos querem mostrar, e daí segue o veredicto: sim ou não, swipe à esquerda ou à direita, serve ou não serve. Olhemos em redor e vejamos se não é esta tinderização de tudo que alimenta celeumas, escândalos, polémicas, opiniões populares e ódios. Em toda e qualquer clivagem ou onda de indignação da opinião pública a regra parece ser a escolha binária, contra ou a favor, embate de opostos. Noite ou dia, vai ou racha, ganhar ou ficar em último, santo ou criminoso, republicanos ou democratas, Brexit sim ou não, Haddad e PT ou qualquer coisa que seja anti-PT, ainda que seja o fascismo. Vale tudo até e além da mentira descabida para criar um falso sentido de escolha única e o caminho mais fácil e eficaz é a diabolização dos opositores, é a força do medo e do ódio, é o incitamento à eliminação dos que não são semelhantes ou ameaçam os privilégios próprios. Não falo contra a radicalização de posições, que a aversão aos extremos, tão válidos como qualquer posição intermédia, é frequentemente ignorância ou medo. Falo de assumir a complexidade dos temas, de debater com sensatez e sem negar e respeitar a existência de todos os naipes de opções, matizes e posições ambíguas, de conhecer a verdade, que é material e objectiva, e pensar sobre ela antes de tomar posição.

 

A validação da idoneidade dos veículos de informação tornou-se acessória. Se há umas décadas a falácia consistia em alguma coisa aparecer escrita num jornal ou divulgada na rádio para se tornar verdade perante o escrutínio do grande público, hoje em dia esse lugar parece ter sido substituído pela internet. É imperativo aguçar o espírito crítico para a validação de tudo o que se vê publicado e é necessário educar para a verdade, para questionar as fontes, para unir os pontos, para apurar os factos antes de cuspir veredictos inflamados pela indignação. É preciso aprender a ver, mais do que a olhar; a não julgar os livros pelas capas; a não aceitar ou rejeitar tacitamente pelo que é aparente e superficial. É preciso conhecer por dentro as coisas e pessoas antes do fanatismo e da rejeição, é preciso explicar, debater, argumentar, interrogar. É preciso ousar sair da caverna de onde só se conhecem sombras e enfrentar a luz, perder o medo que nos empurra e se nenhum dos caminhos que vemos nos servir, encher o peito de fôlego fresco e trilhar um caminho novo.