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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Os beijos saem por instinto, a qualquer momento, aonde te chego: cotovelo, ombro, costas, queixo. Quase em névoa de sonho, puxada de repente do sono pela tua mão quente a afagar a perna fria que deixaste descoberta quando roubaste o lençol, o que nos cobre carinhos e ternuras, quase sai em jeito de suspiro um "meu amor". Ousadia proibida, essa de assumir que a mão cheia de nada que é o que existe podia ser uma mão cheia de tudo.
São intervalos por cima dos telhados, excepções que devolvem o sentido ao que é irracional. Brechas em estrondo na normalidade pálida que se cimentou.
A tentação de dinamitar tudo para evitar uma morte triste e murcha seduz. Uma enorme explosão é sempre mais poética do que um definhar lento e sofrido. Com fogo e luzes, isto que é nada até parece ser alguma coisa a ser sugada com avidez pelas chamas, até parece que havia pilares e coisas frágeis que se partem em grande estardalhaço. No lugar de cinzas vão ficar planos para os quais nunca houve tempo, mais umas páginas rasgadas do teu caderno e a culpa da revolução falhada uma vez mais.

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Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

O “Espesso” adiantou ontem que o PSD vai propor a eliminação do agravamento de IMI para imóveis com valor patrimonial superior a 600 mil euros (0,7% para estes e 1% para os imóveis com valor superior a um milhão de euros), por considerar que “o país já está sobrecarregado de impostos” e ainda que este agravamento constitui um “ataque à classe média”.

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Quando li isto olhei em volta, para o meu T2 nos subúrbios, que comprei há quase 10 anos, usado, com um enorme esforço que implicou a aplicação de todas as minhas poupanças até à data, uma ajuda extra dos meus pais e um empréstimo bancário por 40 anos. O valor patrimonial do meu imóvel é bem, mas beeeem inferior aos 600 mil euros limite para o agravamento de IMI. E até tenho a “sorte” (?) de nunca ter estado desempregada por mais de uma semana, de receber todos os meses, sem atrasos até ao momento, um salário mil-eurista (como os outros “afortunados” da minha geração). Olhando para o escalão de IRS em que me encontro, constato que segundo os parâmetros deste e dos anteriores governos (nomeadamente e sobretudo os governos com participação do PSD), só poderei pertencer à tal “classe média”. Fico confusa. Faço contas. Observo o saldo da minha conta bancária, que me dá vontade de chorar, e começo a questionar os meus dotes aritméticos, que sempre me disseram ser bastante bons.

Ora pensemos juntos. A continuar a depender exclusivamente do meu trabalho (abusivo e mal-pago) para sobreviver e pagar contas, se conseguir poupar qualquer coisa como 250 euros, em média, por mês, e ainda se contar com igual “sorte” e esforço por parte do meu companheiro (o que não é fácil para nós actualmente e seria completamente impossível se porventura as despesas crescessem, como num acesso de loucura de aquisição de um automóvel, ou num acesso de loucura ainda mais extrema, a procriação), teríamos uma poupança conjunta anual de 6 mil euros. Ou seja – três vezes seis dezoito, é uma questão de fazer as contas, como dizia o Guterres – teríamos de trabalhar ainda, pelo menos, mais cem anos para podermos comprar, em conjunto, um imóvel de 600 mil euros, já não contando com a oscilação do mercado imobiliário nem com a inflacção.

Concluo enfim que...

Classe média o caraças!

Não sei quanto ao resto do mundo, mas para mim declarações desta índole são profundamente ofensivas, são um gozo descarado com a cara dos trabalhadores. Mas devo ser eu que estou errada, porque afinal são os partidos do centrão que têm há décadas o apoio popular e suspeito que continuarão a ter até que o povo desperte da letargia.

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O problema dos lugares é que ficam tatuados nas memórias, acoplados aos cheiros, às emoções [coração no túnel, fora do peito], ao tacto, ao som de cada palavra [tuas dentadas, bochechas salgadas]. Não se consegue dissociar o lugar das memórias fortes, felizes ou infelizes, e isso gera toda uma expectativa inconsciente de que os lugares, só por existirem, asseguram para a eternidade os sentimentos que outrora testemunharam. Por isso se recomenda não voltar aos sítios onde já se foi feliz. O cérebro adora encontrar padrões na realidade que apreende e espera a reprodução daquela outra felicidade [os beijos de nuvem, boca macia de volúpia]; claro que o mais certo [o amor não é física, não se reduz a explicações nem a fórmulas matemáticas] é a realidade não encaixar na expectativa. Se a História se repete é por falha no guião, alheio à natureza mutável do mundo e dos homens [podia bem ser a tua mulher]. Culpa da memória que vai lapidando e erodindo as recordações, às vezes forjando algum pormenor [as tuas mãos nas minhas mãos, o meu nariz aninhado] ou submergindo-o por inteiro.

Insisto na teimosia [camarada]. Lugares há em que deambulo todos os dias, vão massacrando pela repetição da ausência, raspando ao de leve a pele com uma lixa suave e meiga [a tua barba negra, os caracóis], mais e mais, até a ferida aberta já não ter pele nem carne nem osso nem sangue nem vazio [fome de ti]. Comprarei um seguro contra desgostos. Uma mezinha para me untar, inteira, loção de aço, à prova de corações partidos e promessas de poesia [Teresinha]. Não tenho como atravessar os mesmos lugares de primeiros beijos [tão doces] e joelhos no chão, com os cacos espalhados, enterrados.

Como é que se esquece, como é que se cala, como é que se ignora que estamos a ir no sentido oposto - e não era nada disto que eu queria [à nora]? Caramba, como é que se respira?!

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A Revolução não é feita só de tiros nem de cravos. A Revolução também é feita de beijos que atingem em cheio o peito -  uns ferem, outros matam - e de beijos perdidos, disparados sem mira e sem pontaria, para o ar.
A Revolução não se acompanha só de música de intervenção. Também se instiga com estrofes melosas cantadas baixinho ao ouvido, com poemas de Cortázar, e com a canção do bandido.
A Revolução sou eu, foi o que ele disse. Não acreditas? Ou tens medo de ir à luta sem armas?
Quero cuidar-te. Lamber as tuas feridas.
O amor não oprime, ou não é amor. E não havendo maior Revolução que o amor, também não existirá amor maior do que a transformação revolucionária do que está errado, injusto e triste. Eu sou a Revolução, tu és a Revolução. Seremos mártires ou carrascos, mas jamais amordaçados, jamais apenas vítimas sem nome, águas estagnadas e conformadas. Não me renderei.

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Olhar para o calendário consegue deixar-me ainda mais boquiaberta. Foram precisos apenas 20 dias (menos, bem menos) para questionar quase tudo. Do avesso, repito, foi o que me aconteceu. Virada do avesso.
Talvez tenha sido precipitação, mas já sou crescida o suficiente para não ter medo de mergulhar. Não sei mergulhar, não sei suster a respiração e desconheço os segredos das sereias lá no fundo dos oceanos, mas sei que os travões da razão não podem nada contra o sonho. É apenas e só pelo sonho que vamos, que ninguém se iluda. Se pudesse fazer chegar conselhos a mim própria numa viagem ao passado, dizia-lhe isso, em jeito de confirmação do que já sabia há muito e teimo em contrariar. Aliás, pudesse eu e espetava com essa verdade na minha própria tromba diariamente, com força, para doer.

Se o sonho se materializa, ali à tua frente, sem plano e sem rede, num qualquer Largo do Regedor, atira-te de cabeça. Não o deixes escapar, porque talvez nada volte a ser feito dos mesmos sonhos que aqueles, no mesmo plano terreno, porque não há outro daqueles e em havendo, que importa, se é aquele o teu sonho, o único que queres viver, com que queres ir à luta e mudar o mundo. Se o sonho te quiser beijar, não fujas. Beija-o com toda a vontade que tens - tanta!, como nunca antes tiveste. Agarra-te ao pescoço dele e não largues. Roça-lhe os dentes pela barba, agarra-lhe as duas mãos e diz o que estás a calar, até hoje. Faz todas as promessas que não podes fazer, dá por completo o que tens tanto medo de dar, aceita o que é bonito e genuíno - e teu se o quiseres. Sem garantias de nada, só com a subtil magia da antecipação de ter o mundo todo, ou tudo o que interessa do mundo, naquelas duas mãos que te querem, que te procuram desde sempre. Se te chamarem quando segues para norte, fica. Deixa de armadilhar o caminho enquanto dormes e de inventar desvios. Se acaso tiveres o privilégio de sentir o sonho a teu lado, tão real, de mãos dadas e com os lábios colados aos teus, não penses. É quando pensas demais que falas demais e dizes o que não queres para ouvir o que queres. Tão independente, tão aventureira e destemida em tudo o resto na vida, e encolhes-te toda quando o amor te puxa. Pensas que não é verdade, que não mereces, e borras-te toda com medos mil. Tanto tempo passado a lamentar fugas alheias e rejeitas o sentido disto tudo só porque vem numa hora difícil, sob formatos inéditos, com dificuldades acrescidas. Sabes bem que isso não vale, quando o fim vale muito mais. As Revoluções não se fazem sem vítimas. Venham os cravos. O que vale é o Sonho. Pelo sonho é que vamos. Cola-te ao sonho como se lhe pertencesses mais do que o sonho pertence a ti, cobre-o de beijos em rajadas, navega nas barbas dele, manda-o ao chão indefeso, entrelaça os teus pés nos dele, adormece-o com festas nos caracóis.

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Este blogue é solidário. Pela Maria e o Gato e o seu nobilíssimo mega-dream, primeiro. Agora é a vez do deputado Ricardo Gonçalves*. Que, coitado, não tem dinheiro para jantar. Não deve ter o poder de compra que a família de 4 ali da esquina tem, que eles sobrevivem com um farto ordenado mínimo de €475 e podem bem abdicar das gasosas em que diluem o vinho de pacote e do leite com chocolate dos miúdos.


Eu cá vou fazer a minha parte. É já neste sábado. Estou é indecisa entre ir ao Lidl comprar um daqueles sacos de ração seca Orlando ou contribuir com os restos de dobrada de há três quinze dias de que me esqueci no frigorífico. O que acham?


 





 


*Não estão a ver quem é a peça? Espreitem aqui, em desgarrada com outra do mesmo calibre (hoje estou simpática).

Que dia! Fora este monitor um diário e deixaria a página em branco. Que a guardar, “só o que é bom de guardar”. No limite da tolerância ao choque ideológico (pet name para emprego), na incerteza do rumo que pretendo mas na certeza do que não pretendo, no cansaço das fugas, que todas as direcções estão esgotadas. Já consumi o pouco talento que tive outrora para fazer com que uma migalha de alegria enchesse a barriga (no sentido figurado) e o espírito (no sentido literal). Já não me chega a promessa, a esperança, sequer o sonho. Só a vontade me traz força, e a vontade não é de caminhar nesta direcção.


Não sei fazer planos. Não sei pensar estrategicamente, não sei esperar pelos momentos oportunos, não sei fazer bluff. Mas sei, tão bem, o que quero. Sei o que gosto de fazer e melhor ainda de quem gosto, sei o que me motiva e o que me contenta, sei onde guardo os talentos e onde devia esconder as falhas. Sei o que valorizo e que não valorizo o mesmo que os outros. Há uma diferença enorme entre estar perdida e não saber para onde vou.


As decisões foram tomadas. Agora, é ir.


 


 

assim todos duma vez, que estou com pressa. Todos daqui. Faz ou não faz sentido? Venham lá todos dizer-me que não, que sou louca, que tenho de me acalmar e sonhar o que toda a gente devia sonhar, que estou a cometer um grande erro, que não vou ser capaz de enfrentar tudo sozinha, que devia era encolher-me, fugir e fingir que não se passou nada. Força, atrevam-se. Digam-me que me acham desequilibrada, doida, que desafio a lógica e as forças do universo, que vou magoar-me mais, que não estou a considerar as consequências. Que estou a condenar-me a uma solidão devastadora, mascarada de sacrifícios. Digam-me na cara o que pensam, mas não encolham os ombros com receio e pena e com olhos lacrimosos. Não me dêem palavras de conforto, que o meu conforto é a verdade. Não me falem de justiça e de mundos perfeitos. Há coisas maiores que o mundo e este que temos é cheio de falhas.





I'm doing it.


 







Foi há 31 anos que os ventos eram de mudança. Pequenos e tímidos a princípio, atabalhoados, sem saber qual a direcção em que soprar e fazer da sujidade escondida entre ruas e esquinas apenas uma memória. E depois, ergueram-se, confiantes, em fortes lufadas de ar cheiroso a cravos frescos, a revolução, a democracia.

Hoje as memórias já não são cultivadas como antigamente. A geração revolucionária acomodou as recordações no fundo duma gaveta antiga e faz questão de encolher os ombros em cada acto eleitoral. São poucos os filhos dessa geração que se comovem ou que são arrebatados de paixão com as canções de intervenção. Outros, poucos, estão atentos aos sinais da liberdade que às vezes se perde, aos pouquinhos de cada vez. Anseio por uma tempestade que exorte as vitórias do Povo e faça novamente crer que é possível a justiça, a liberdade, direitos e deveres iguais para todos. É preciso lembrar. É preciso acreditar. É preciso fazer.



"O Sol brilhará para todos nós."

 


Abre os braços e eleva-te no ar...