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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

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"Mostra-me que o sol não brilha negro" pediu ele, despido. Ela apontou e mostrou-lhe o Sol de todas as cores, mas também lhe mostrou a Lua em gratidão pela noite e céus estrelados. Ela admira a persistência do Sol mas trata por tu a inconstância da Lua, que sempre a acolhe nas dúvidas e desejos. Ele não sabe que é ele quem traz o Sol no sorriso e é sempre ele que ela vê no horizonte quando namora o rio. Ela sabe que se vai queimar mas foi buscar um pedaço ao Sol para lho entregar.

Ela roubou um pedaço do Sol e, com dedos de carvão, atirou-o para ele apanhar, lá longe onde sempre está. Ele viu o pedaço de Sol a voar na sua direcção. Era fogo puro. Era quente como os abraços que ela tinha no caixote dos amores negados com o nome dele. Ele teve medo de queimar os dedos e os cabelos, ou talvez só tenha constatado que aquele pedaço singelo de Sol não lhe merecia o esforço, e não esticou um braço, não ergueu os olhos, só se agachou e deixou o Sol queimar outro lugar. Quando a Lua veio espreitar, ela já era só cinzas e ele chorava por não ter sol a brilhar.

O Sol continuou a nascer e a brilhar, às vezes atrás de nuvens. Ela tinha perdido o respeito pelo Sol, como sempre acontecia com os conformistas da vida, com quem encolhe os ombros, com quem se acostuma a viver pela metade. Como se atrevia o Sol a não protestar terem-lhe retirado um naco, a continuar como se o mundo seguisse igual, a sempre surgir onde era esperado, sem atrasos? Ia resignar-se a ser para sempre a constância fiável que dele se esperava? Tanto fogo, tantas explosões de alma e poder de fazer girar planetas à sua volta, e afinal era um imprestável, uma ovelha seguidista, incapaz de mudar de rota um dia, de girar ao contrário um instante, de fazer uma greve, uma birra que fosse. Que liberdade é essa de nunca sair dos eixos, nunca contestar, nunca exigir o que é seu? A liberdade de permanecer agrilhoado sem sequer agitar as correntes de aço que seguem dominando o universo e minando as Revoluções? Desprezo, só conseguia ter desprezo por uma estrela coxa que continua servindo cegamente os mestres, curvado a regras e a bons costumes.

Ele já há muito não a procurava. Marcava presença quando e só se ela o chamava. Na verdade, ele só a procurara quando ela o negava, quando ela ainda tinha medo das palavras, de se queimar, de ficar retida. Era o seu único medo e sempre se confirmava que era absolutamente fundamentado. Por muito que tentasse lutar contra as vontades do coração, acabava sempre por ficar colada às resistências, qual mosca electrocutada pelo fascínio da luz. Ele tinha ficado encantado com a sua liberdade e as suas ganas, com o seu vestido de ventos e vontades. Disse-lhe, afoito e apavorado, que ela tinha partido a muralha, apenas para passar quase todo o resto da vida a tentar erguê-la de novo, pedra a pedra (ás vezes atirava uma ou outra, ela não se desviava), com frieza gélida e musgos húmidos que não servem de cola.

Ambos sabiam que as mensagens crípticas que se dedicavam a largar no mar, sem garrafas a garantirem a integridade da mensagem, ou em aviões de papel toscos, destinados ao colapso, só batiam de frente no peito do outro.
Ela deixou de o chamar. Cansada de nunca ser a sua vez de colher as palavras mais bonitas, os elogios mais abertos, de ter tempo de antena ou um mínimo de visibilidade. Nunca era ela nas fotografias, nunca era ela a aplaudida, para ela nunca mais houve risos tolos ou piropos mal disfarçados. Sim, também ela se revoltou contra si e a sua impassividade na espera de alguma coisa incerta que nunca vinha. Deixou de aguardar a sua vez para ser oportuna, admirada, desejada. Jamais se sujeitaria novamente ao papel da amigalhaça de coração destroçado na fila das migalhas de afecto. 

Talvez tivesse chegado sem aviso o dia em que os recomeços se viam cansados de o ser. Talvez a distância ganhasse espaço para arrumar um ou outro vislumbre da paz do abraço que nunca chegou, como fiapos de cabelo a esvoaçar ao vento, rebeldes, apesar das mil estratégias para os domar. Talvez navegar fosse só isso, sem rumo ou destino, só embarcar e deixar ir, devagar, onde a corrente nos quiser levar. Talvez um dia a luz não seja hipócrita e não se deixe usar para esconder à vista de quem souber ver o que é tão simples e puro. Talvez nesse dia não seja necessário fingir.

 

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Há dias em que acordo sem saber possível um rumo que se defina desde aqui até ao horizonte. Acredito, nele e em mim, nas minhas pernas como dois barcos alternantes e nas velas que são os braços abertos. E navego sem tréguas, sem âncoras, sem portos. Sem bússula, também, que o meu horizonte é a beira do mundo e não tem coordenadas. Em mar de meninas ou em tempestades, sem medo dos piratas da vida que me assolam, sedentos de me extirpar de purezas e sorrisos, meus bens mais preciosos.


 


 





 

Estar triste não é estar deprimido. E vice-versa. Não necessariamente. A linha pode ser ténue e é com excesso de tristeza que a maior parte das depressões se alimentam. E para não deixar a depressão instalar-se, ou para a mandar porta fora, há que fazê-la passar fome. Limitar as tristezas, ocupar a mente com outras coisas, com projectos, com ficção, com o que seja. Procurar os lados positivos que existem sempre, no passado e no presente. Sorrir muito, mesmo quando a vontade contraria. Oferecer sorrisos aos outros e enganar o cérebro. Fazer coisas de que se gosta. Ouvir música positiva. Abrir as janelas todas, da casa e da alma. Deixar entrar o Sol.


 



 


 



 

Areia. Leve, mutável, instável. Dourada, mágica, onde voámos por cima das estrelas.


As histórias são feitas de pequenos grãos, que podem unir-se e pausar, ou podem voar para qualquer direcção. Podem ir, ou ficar. Cada grão um breve instante, com várias faces. Cada grão um mundo.


Nós dois, um deserto. Tantos, tantos grãos, tantos momentos, tantas emoções. Vão para onde o vento os soprar.


 



 


O nosso nome tatuado na areia vai permanecer, no matter what. 


 


 

 Estou com problemas de expressão. Ora porque me faltam as palavras, ora porque sobram as tantas coisas que queria dizer-te. É que as palavras são pequenas, são poucas e indignas do que te quero dizer. Queria dizê-lo com olhares e sorrisos pendurados ao peito, queria que os lesses com avidez e te lambuzasses em cada sílaba. Nem todas doces, algumas mais amargas, como o tempero que nos traz de volta ao inverno, que te permite comparar as realidades que tens e os sonhos que podem ser teus, nossos.

A incerteza move-me, sabes que adoro aquela adrenalina da descoberta pela descoberta, a dúvida e as possibilidades exponenciais que me significam sonhos sem rédeas. Pesadelos e dores, também tenho encontrado. Mas não me queixo senão quando a escuridão não me permite ver mais além. E tu és a luz. Iluminas e arrepias, calor doce e pura ventania.

Queria dizer-te que sei. E que estou dentro de ti. Que quando te sentes a perder o fio condutor, sou eu. Que quando a lógica impera, também sou eu. E que quando sentes a minha falta, não sentes apenas a falta da companheira de aventuras. Queria que fosses tu a reconhecer a capacidade que tens de fazer alguém feliz. Queria que te entregasses ao sabor dessa maré que tens dentro, que pousasses esses remos obstinados. Os planos antigos que traçaste eram bonitos, eu sei. Aconteceu como não devia. Faz as pazes com o passado, com os erros e as razões. Começa de novo, planos novos, que nunca poderão ser iguais... mas serão planos onde cabes tu por inteiro, onde nenhuma dimensão tem de ser vergada. Onde possa caber todo um mundo além do teu.

Queria dizer-te que gostava que me desses flores. Que cometesses uma daquelas loucuras anunciadas, tão tuas. Que me convidasses para um passeio. Queria contar-te da vontade que tenho de te oferecer presentes de Natal todos os dias, de levar-te sumo de laranja à cama e de nunca mais ter saudades tuas.

Queria que pudesses apagar algumas palavras, que as quisesses retirar para sempre. Queria que pedisses desculpa.

Queria dizer-te para perderes esse medo. Queria ensinar-te a amar de novo, melhor. Queria mostrar-te o que me comove no nascer do sol e queria aprender todos os teus risos e olhares. Queria caminhar lado a lado contigo, de dedos entrançados nos teus.

Sei que te encontras nas minhas palavras, sei que a perturbação também chega a esse lado. Queria dizer-te para não resistires... Para arriscares. Para experimentares. Queria que, se no futuro houvesse lugar para arrependimentos, que os houvesse pelo momento em que valeu a pena e não pela ausência duma estória.

Queria dizer-te que há dias em que um beijo vale tudo. E que há beijos que me dão vontade de chorar.

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