Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Eu soube que era realmente o fim, quando o obriguei a passar por cima da cobardia de me comunicar via messenger e lhe disse, de cabeça erguida, que não era pessoa para tolerar uma dispensa assim, a seco – era o que mais faltava! Se depois de quase cinco anos de namoro sólido, depois de todas as promessas, depois de ter posto o joelho no chão e me ter feito uma pergunta em plano b, e depois de andarmos durante meses a fio a ver apartamentos e depois de na segunda-feira dessa mesma semana termos feito a reserva do apartamento que queríamos e era perfeito ele pensou que podia simplesmente enviar umas frases no messenger a dizer que tinha acordado e foi para a praia pensar e que afinal não, não era aquilo que queria, estava redondamente enganado. Se foi olhos nos olhos o primeiro beijo, num quarto de hospital em que a família toda podia entrar a qualquer momento, o fim merece pelo menos ser também olhos nos olhos. Não entendi, pedi razões, que ele não deu. Não porque não. Ele não tinha razões para acabar aquela peça de teatro, mas também não havia grandes razões para continuar e quando percebi isso concordei e até agradeci,  porque não sabia, não sei ainda, desistir e se não o fizerem por mim eu continuo a nadar contra a maré ad eternum. Soube que aquele era realmente o fim porque aceitei, porque no fundo fazia sentido. Soube que era realmente o fim porque antes dele me ir buscar à faculdade tinha dado uma aula das melhores, com toda a calma do mundo e sem pensar na reviravolta que a minha vida estava a dar enquanto fazia perguntas inspiradas e os alunos defendiam os trabalhos, porque no fim uma aluna me dizia que eu era das melhores professoras que tinham tido aquele ano e eu sorria com a constatação de que são as surpresas que nos fazem avançar. Soube que era o fim porque durante a conversa não houve lágrimas, só uma calma estrondosa, porque ainda fomos jantar e encontrámos no caminho o rapaz que me fez hesitar cinco anos antes, que me empurrou o baloiço madrugada dentro naquele verão de surpresas sem fim e que eu, como ele, fiz por ignorar porque já tinha conhecido outra pessoa. Soube que era o fim porque falámos de coisas concretas, desapaixonadas e insípidas, como quem falava com a imobiliária, tem de se cancelar a conta conjunta, os meus livros, os teus filmes, o conjunto de barbecue, fica lá com o conjunto de barbecue, sempre foste mais dado a churrascadas com o clã. Soube que era definitivo quando ele parou o carro e eu lhe dei um beijo de despedida e esperei até entrar em casa para deixar as lágrimas correrem pelo ponto final que era o ralo.


Os finais têm sempre beijos de despedida. Quando não os há fica o espaço em aberto a aguardar o desfecho.


 


 



 


 

6 comentários

Comentar post